Análise · Lobos árticos
Arctic Wolf Family Simulator: metade do mapa não é ártico
Arctic Wolf Family Simulator é o mais apresentável dos dois simuladores de lobo-ártico que reuni. A TingBing Gaming arrumou os comandos nos quatro cantos em vez de os espalhar por todas as margens, deu aos animais um movimento com algum peso e montou uma encosta nevada com rochedos que aguenta bem o olhar.
Este título não tem classificação pública no Google Play, por isso não há nenhum número da loja para citar nesta página. A nota que dou é minha, e o principal desconto que ela leva não é técnico: é o de um jogo que põe a palavra ártico no nome e depois passa metade do tempo num prado verde.
Ficha técnica
- Estúdio
- TingBing Gaming
- Classificação na loja
- sem classificação pública no Google Play
- Nota da redacção
- 6,2 em dez
- Caderno
- Lobos árticos
- Modelo
- Jogo gratuito para Android
- Tipo de sessão
- Quatro adultos, encosta nevada
- Ficha oficial
- Ver no Google Play
Para quem serve e para quem não serve
Serve bem a quem quer um simulador de lobo sem grandes exigências e com um ecrã que se percebe à primeira. Os comandos são poucos, estão agrupados e nenhum deles é indispensável para começar a andar pela encosta.
Não serve a quem procura rigor no cenário. Quem tiver interesse genuíno pelo animal vai reparar depressa na mistura de ambientes e no facto de a alcateia do jogo não ter crias, o que é precisamente o contrário do que o subtítulo de família promete.
O confronto, visto de perto
Os encontros com outros animais resolvem-se por aproximação e por um botão único do canto inferior direito. Há coelhos e cervídeos espalhados pelo mapa, com rotinas simples de pastar e fugir, e a perseguição é a parte mais conseguida: o lobo acelera devagar, perde tracção na neve e precisa mesmo de escolher o ângulo.
O que falta é consequência. Não há posicionamento que conte, não há forma de cercar uma presa com os outros lobos do grupo e não há ferimento que se note depois. Termina o encontro e tudo volta ao estado inicial, incluindo os animais, que reaparecem quase no mesmo sítio.
Idioma, menus e legibilidade
Não há português. Os menus estão em inglês, mas usam muito poucas palavras — a maior parte das acções está representada por ícones suficientemente claros para dispensar tradução.
É uma vantagem sobre o outro simulador do mesmo caderno, que enche o ecrã de símbolos sem explicação. Aqui, quem não lê inglês consegue jogar sem perder nada de essencial.
O território e aquilo que ele esconde
O território divide-se em duas metades que não combinam. A primeira é uma encosta nevada com rochedos soltos, neve funda e uma linha de montanhas ao fundo: está bem montada, tem profundidade e é exactamente o que se espera de um jogo com este nome.
A segunda é um prado verde de erva rasa, com pinheiros dispersos e as mesmas montanhas nevadas ao longe. A transição entre as duas faz-se sem aviso e sem explicação. Vale a pena dizer o que está por trás disto: o lobo-ártico é uma subespécie do lobo-cinzento que vive na tundra do extremo norte, e a pelagem clara é uma adaptação a esse ambiente. Pô-lo a correr sobre erva verde não é impossível na natureza, mas desfaz por completo a ideia que o título vende.
O que se faz no ecrã
A sessão começa com o lobo numa clareira, uma barra de estado no canto superior esquerdo, um comando circular em baixo à esquerda e um punhado de botões redondos à direita. É tudo. Comparado com a média do género, este ecrã é quase ascético.
As tarefas chegam sem menus intermédios e podem ser ignoradas: quem quiser limitar-se a percorrer a encosta pode fazê-lo, e o jogo não insiste. Essa ausência de insistência é, a meu ver, a melhor decisão de desenho do título.
Balanço
O que faz bem
- O ecrã mais arrumado dos dois simuladores árticos do diário
- Perseguições com peso: o lobo acelera devagar e perde tracção na neve
- Interface quase sem palavras, legível para quem não lê inglês
- Abre sem conta, sem tutorial e sem ligação à rede
O que corre mal
- Metade do mapa é prado verde, num jogo que se apresenta como ártico
- A alcateia não tem crias, apesar de o subtítulo prometer família
- Encontros sem consequência: os animais reaparecem quase no mesmo sítio
- Transição entre neve e erva feita sem qualquer aviso
Veredicto
6,2nota da redacção, numa escala de zero a dez
Arctic Wolf Family Simulator faz bem a parte que costuma correr mal nestes jogos — o ecrã e o movimento — e falha na parte que parecia mais fácil, que era manter-se fiel ao ambiente que anuncia. É um simulador competente com um problema de identidade.
Recomendo-o a quem quiser experimentar o género com o mínimo de atrito possível. Quem procurar uma tundra credível do princípio ao fim vai sentir-se enganado a meio do mapa, e com alguma razão.